MUDANÇA NÃO PREVISTA

                A casa era muito ampla, a decoração mesclava diversas tendências, tudo era diferente, gracioso, parecia a casa dos sonhos. Estava sempre muito bem arrumada, organizada, ornamentada, impecável, cada objeto cuidadosamente limpo. Não havia poeira. Esta tinha sido palco de grandes reuniões, festas, comemorações, discussões amenizadas rapidamente com palavras carinhosas, risos histéricos e com noites de grande paixão.

                O casal que nela habitava era feliz. Quando eles se conheceram, logo se apaixonaram. Namoraram por um tempo suficiente para terem certeza. Casaram-se, não tão jovens e imaturos, nem tão maduros e desiludidos.

               Faziam inveja a qualquer um de tanto que se amavam e eram leais. E acima de qualquer inveja, dos altos e baixos da vida a dois, estavam juntos há muitos anos.

                Porém, agora, nada era mais como antes. Passaram dias, semanas, meses, nem eles sabiam ao certo quando tudo mudou.

                 O imóvel parecia ter reduzido gradativamente de tamanho. A casa estava em desordem, os objetos e móveis fora do lugar, tudo muito confuso. Eles, sem se darem conta, deixaram acumular pó.    

                 Ele, cansado, passou a ficar alheio aos acontecimentos domésticos, estava sempre ocupado trabalhando demais. Ela, cansada, às vezes, saia para cuidar de si e largava tudo em casa.

                 Qualquer atitude fora do comum gerava desconfianças. Exerciam cobranças e faziam reclamações constantes um do outro. Um cada vez mais nervoso, frio e indiferente com o outro. Desvalorizavam quando o outro fazia algo de bom. Nunca estavam satisfeitos.  A distância crescia entre os dois.  

                 Chegou um momento em que não tentavam mudar o presente, nem mais reclamavam, apenas sobreviviam do passado, das recordações.

                 A residência passou a um profundo silêncio. Mesmo emudecidos, cada um tinha muito a dizer ao outro, mas faltava coragem para quebrar o silêncio; as palavras eram calculadas, estudadas, para serem ditas; não queriam ser mal interpretados. Nada de conversas profundas, filosóficas, como era de costume; conversavam o estritamente necessário.

                  Não faziam mais refeições juntos, não conseguiam se encarar por muito tempo; na verdade, não conseguiam permanecer durante muito tempo juntos no mesmo lugar. Quando um sabia que o outro passaria horas ali, desesperadamente encontrava compromissos fora, tudo para fugir.

                  Evitavam se tocar; fugiam de tudo que era íntimo demais. Não buscavam mais um ao outro, mas na tentativa de uma nova chance, às vezes se aproximavam, porém em vão. No quarto, na cama, um esperava o outro dormir para então deitar-se.

                  Queriam entender, precisavam entender. Havia muitas perguntas a serem feitas e precisavam de respostas. Não desgostavam um do outro, contudo foram afetados por algo e não enxergavam mais o outro pelo prisma de sempre.

                  Cada um se torturava com seus pensamentos, achando que o outro poderia ter conhecido outra pessoa e assim estar ocorrendo um adultério.

                  Ela, farta de sua vida, às vezes sonhava com um homem que pudesse conhecer e dar a atenção que não recebia mais. Ele, também farto, pensava nas aventuras amorosas que poderia ter tido.  

                  Algumas vezes ambos se indagavam sobre outra pessoa que haviam conhecido no passado, alguém que tivessem namorado ou se apaixonado. Talvez estivessem em outra situação agora e, conseqüentemente, não estariam passando por isso; poderiam estar com outra pessoa e felizes.

                  A possibilidade de terem cometido erros era questionada; sabiam que não adiantaria mais culpar um ao outro, como fizeram algumas vezes, afinal se havia desgaste, algo conduziu a tal, e não havia inocentes, ambos eram culpados.    

                 Perguntavam a si mesmos se era apenas uma crise, mas, no fundo, sabiam a resposta. Ainda assim, receavam ser algo passageiro; tinham medo de terminar e o arrependimento bater à porta.    

                  A dor era grande. Não conseguiam e não queriam se conformar com o rumo que as coisas estavam tomando. Relutavam; durante um bom tempo remoeram aquela situação.

                  Assim, foram evitando o confronto, arrastando consigo insatisfações, frustrações, incertezas, culpas e tristezas.  Até não poderem mais. Um dia, ao estar só, ela começou a arrumar seus pertences sem pensar muito no que estava fazendo; encaixotou objetos, maquinalmente, absorta em si mesma.

                  De repente, ouviu o virar da chave na fechadura. Ele abriu a porta, e a olhou estático. Sabia o que estava acontecendo. Não conseguiu pensar muito, mas ficou incomodado que a atitude tivesse partido dela. Contudo, um dia alguém precisaria fazer aquilo. Ele não teve coragem, provavelmente por ter se acomodado ou por receio de magoá-la.

                  Ela, que também ficou estática com a sua aparição, começou a se levantar. Depois de meses se encararam sérios e por um longo tempo. Lágrimas escorreram da face dela e os olhos dele ficaram marejados. Tentaram balbuciar algo, mas permaneciam mudos. 

                  Como era difícil ignorar tantos anos de relacionamento. Aquilo que eles mais procuravam, não estavam encontrando. Como explicar o que não tinha explicação. Essa espécie de mudança ninguém pode prever; aliás, acreditavam que o amor seria eterno. Mas seu fim se aproximava.

                   Haviam se apaixonado de forma fulminante. Essa paixão transformou-se em algo sério e estável. O estranhamento simplesmente aconteceu. Provavelmente, um dia acordaram e não reconheceram aquela pessoa com quem dividiam a cama ou durante muito tempo não aceitaram cada um como fosse e sim como gostariam que fosse.

                   Ela deixou seu corpo exausto sentar no sofá, e chorou desesperadamente; ele, chorando também, tentou acalmá-la. Ela acusou-o de uma possível traição; ele, defendendo-se, acusou-a do mesmo. Mas ambos negaram, juraram que não. Perguntaram um ao outro o que havia de errado, se tinham feito algo que desagradou, mas confessaram que não sabiam se havia um motivo. Então, chorando, se abraçaram forte, depois de muito tempo. 

                   Como ela, ele também não havia contratado um caminhão de mudanças e nem procurado outro imóvel, mas começou a arrumar seus pertences também. Muitos objetos tinham sido comprados em conjunto e quando não, compraram pensando em agradar ao outro, e naquele momento só pensavam em separar o que ficaria com quem.

                    Havia objetos que, egoisticamente, queriam levar consigo, talvez como lembrança ou porque era justamente o que lhe pertencia. Queriam algo para recordar, mas também queriam esquecer; sonhavam em ser livres, começar uma vida nova, mesmo com os corações destroçados.

                    Passaram o dia inteiro a separar tudo. O dia amanheceu e não haviam percebido. Depois de tanto tempo estavam loucos para acabar com aquilo.

                    Não conseguiram separar tudo. Chegou um momento em que, na sala, se reuniram e como se estivessem com tudo pronto para nunca mais se verem, se encararam e, com um longo abraço, se despediram e disseram “adeus”. 

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FEBRE

            Ela estava ardendo. Suava frio. Permanecia deitada em sua cama havia horas. Não queria fazer coisa alguma, pois nada tinha importância.

            Parecia-lhe que uma febre a tomava e os graus aumentavam gradativamente. Encontrava-se em eterna agonia. Consumia-se. Tinha dúvida se levantar era uma questão de querer ou poder.

            Desprovida de força, desconhecia de onde tirá-la. Estava insone. Olhava para o nada, cega, absorta em si mesma.

            Sentia algo que não atingia só o coração, mas tomava o corpo.

            Antes, era só quando a noite chegava que, sozinha na escuridão, chorava. Mas depois não tinha mais hora para chorar, o tempo todo soluçava e molhava seu leito com seu pranto. Sua visão ficava turva com seus olhos marejados.

            Estava apaixonada. E não ser correspondida a tornava fraca.

            Tratava-se de um homem que conheceu e conviveu por pouco tempo, mas que não via mais. Contudo sentia que o conhecia há muito tempo.

            Ela fantasiava, idealizava, inventando situações, evocando imagens felizes com ele. Em devaneios projetava como seria o futuro de ambos. Um romance perfeito, amando e se entregando plenamente.

            Antes de decidir se declarar enfrentou meses angustiantes, sem saber o que fazer. Ora pensava em não se declarar, pois além do receio de ser rejeitada também tinha receio dele se afastar. Ora pensava em se declarar; tinha que se arriscar, não podia deixar passar a chance de viver um grande amor. 

            Não agüentava mais manter-se calada, precisava dizer o que sentia, precisava gritar.

           Teve muito medo de se declarar, mas depois de muito tempo tomou coragem e o fez. Preferia levar um fora a não tentar. Sabia que, se declarasse, a relação de ambos provavelmente mudaria. E mudou.

           Havia se declarado inúmeras vezes, todas em vão.

           Ficara muito tempo sem ter notícias dele. Enlouquecera. Tentara saber o máximo de informações por outras pessoas. Quando passava pelos locais onde estiveram juntos percorria desesperadamente com o olhar o local à procura dele.

           Eram tantas as coisas que o lembrava. Quando se apaixona, tudo é motivo para lembrar o ser amado. Já havia até uma canção de ambos, significativa, que os representava.

           Não se conformava. Seriam tão felizes juntos. O casal perfeito. Tinha a sensação de que nunca mais iria gostar de alguém assim. Estava obcecada por ele.

           No fundo sabia que independente da parcela de culpa do outro, que poderia tê-la confundido, talvez dado falsas esperanças, sabia que também tinha sua parcela.

           A parcela de culpa que cabia a cada um era dúbia, pois o que se passa de fato entre duas pessoas, aos olhos de fora já é algo obscuro, o que dizer então de quem estava vivendo aquele momento.

           Contudo o sentimento fora plantado e semeado principalmente por ela, pois quem se contenta com sinais e sobras, vê em suposições, certezas; proibida estava de queixar-se.

           Mas queixava-se, pois só cada um sabe a dor que carrega consigo.

           Sentia-se tão intocada naquela cama, sozinha.

            Não o via mais, se afastara dela. Então ficava se perguntando onde ele poderia estar. Era tão especial que talvez não existisse ou havia inventado-o para tornar seu mundo mais completo, ou talvez ele existisse apenas dentro de si. 

            Mal podia resistir a ele, recusava-se a esquecê-lo.

            Já havia tentado tudo. Tentou sair para se distrair, conhecer outros rapazes, porém sentia repulsa ao ser tocada. Desejava que um homem apenas a tocasse.  Ficou louca desde o momento em que o conheceu.

            No começo trabalhava e estudava, porém seu rendimento caiu e por falta de interesse e empenho largou os estudos. No seu trabalho faltou tantas vezes sem dar satisfações que foi demitida. 

            Todos com quem convivia tentaram alertá-la. Mas pensava: “Dizem que meu amor deixou de ser genuíno, transpôs a obssessão. Não me importo. Se for obsessão, que seja. Ergo um pedestal, e ele será meu objeto de desejo. Elevo-o às alturas, ponho-o acima de tudo e de todos. Idealizo-o, cultuo-o, idolatro-o”.

            Mesmo não o tendo, não podia perdê-lo. Era tudo que tinha de mais importante em si.

           Como se ele pudesse ouvi-la, pedia em silêncio: “Leve meu corpo, enfim, eu te dei tudo de mim, este é a última coisa que eu tenho a entregar”.

            Ficou ali, dias, semanas, meses, não importava quanto tempo se passou.

            Havia se declarado, porém em vão. E mesmo assim persistiu, falando e fazendo tudo que estava ao seu alcance. Contudo também em vão.

            Até que se deu conta de que não havia mais o que fazer. Poder algum tinha para obrigá-lo a ficar com ela e nem o queria fazer, pois não podia gostar e querer por ambos.

            Então se recolheu, calou-se.

            Mas se não conseguia esquecê-lo, então decidiu sofrer de amor, intenso, profundo, pois chegaria a um limite intransponível. E impossibilitada a ultrapassá-lo, seu sentimento estacionaria ou diminuiria até cessar.

ENTRE QUATRO PAREDES

      A porta do quarto abriu abruptamente; ele entrou com os olhos marejados e, num ímpeto, se atirou à cama. Com a face abafada pelo travesseiro ficou ali deitado.

     A  casa continha belos móveis, porém tudo estava desorganizado, sujo. Era uma residência ampla, com muitos móveis e objetos de decoração, mas para ele era tão vazia quanto pequena.

     Desde que perdeu sua esposa, a única pessoa que aprendeu a amar, a se entregar de verdade, tudo perdeu o sentido. Logo quando ocorreu, os amigos tentaram dar apoio, mas aos poucos ele se afastou de todos e, conseqüentemente, eles se afastaram também.

     Vestia-se mal, deixou a barba crescer muito, estava abatido, irreconhecível, contudo, nada mais importava.

     Trabalhar muito foi o que o salvou e o impediu de cometer alguma bobagem. Passava o tempo todo fingindo a todos que estava tudo bem, que havia superado tudo, pois fazia cinco anos da perda. Porém, a dor que carregava e que o consumia só ele conhecia.

     Quando estava de folga, geralmente ficava deitado na cama, onde dormiu tantas vezes com ela. Deitado, sem coragem e sem força para se levantar. Ora dormindo, ora acordado, olhando para o nada. Como se do nada as coisas mudassem ou o nada a pudesse trazer de volta. 

     Às vezes saia com colegas de trabalho e bebia. Bebia feito louco, como se pudesse apagar seu passado, fazê-lo esquecer. Dormia com mulheres desconhecidas, mas não conseguia satisfazer-se, mal conseguia tocá-las.     

     Ele estava tão cansado e triste, mas ali, em seu quarto, sentia-se um pouco melhor, no seu caos se encontrava… Enfim, só. O silêncio era tão precioso, singelo, sublime. Então chorou. De um choro manso passou a um agudo perturbador. Pôs-se sentado à cama e agarrado ao travesseiro deu um grito em meio a soluços. Contudo, estava em seu direito, sem necessidade de explicações.

     Era tão bom escutar sua voz, apenas e tão somente a sua voz… Não queria saber do problema, da neurose, da mediocridade, da mesquinhez, do sentimentalismo de ninguém.

     Num ímpeto de agressividade levantou-se e passou a atirar objetos que encontrou em sua frente sem direção definida. Para uma pessoa que havia suportado tudo até então, chegava o dia em que precisava extravasar.

     Não queria sair mais, ali queria se enterrar.

     No seu mundo podia controlar, ditar as regras, podia ficar só ou convidar quem quisesse para fazer parte dele.

     Queria chorar mais, porém, secou por dentro pelas inúmeras vezes que banhara o leito com seu pranto.

     Sentiu tanto, que agora não sentia mais nada. Considerava-se insensível, depois daquilo nada mais o abalaria.

     Pensou: como seria doce dormir e nunca mais acordar.

     Estava ali entre quatro paredes, onde o ser humano se revela, coloca sua máscara de lado e sua veste que apenas o veste fora das quatro paredes. Entre elas, despe-se e o camaleão fica lá fora, não é preciso fingir nada a ninguém, e dizer coisas para agradar, nem ser forte o tempo todo. Entre quatro paredes há liberdade, falsa talvez, mas não deixa de ser liberdade.

     Então com a cabeça para trás, com olhos cerrados, pronunciou baixinho:

     – Liberdade…

     Depois tateando as paredes guiou-se até um canto do quarto e sentou-se agarrado aos joelhos.

     Olhar para tudo aquilo doía demais, cada detalhe havia um toque dela, cada canto havia uma lembrança feliz ao seu lado. Poderia mudar de residência, mas nada mudaria dentro de si. 

     Pensou que não importava para onde corresse, onde esconder-se, carregaria sua dor consigo. E ali, no seu caos, onde sentia-se livre, também encontrava seus demônios. E se queria livra-se deles, teria de enfrentá-los, não importando quanto tempo levasse.

O ECO MUDO DO PRANTO

      Todo dia era o mesmo, pelo menos para ela. Sua vida resumia-se do trabalho para casa e da casa para o trabalho, como um círculo fechado e vicioso. Seu tempo era escasso, e, portanto, deveria dar-lhe a impressão de haver diminuído, mas a sensação era que se estendia longamente.

     Deprimida era seu nome; jovem, mas parecia que já tinha vivido tudo. Estava sempre rodeada por muitas pessoas, porém morava sozinha e assim se percebia.   

     Mesmo em dias ensolarados tudo lhe parecia preto, sem contraste, por isso usava trajes de tecidos encorpados e sóbrios, pois precisava se proteger do frio que pelo seu corpo corria. Estava magra, completamente definhada. Seus ombros eram curvados como se quisesse esconder algo, e andava sempre com a cabeça baixa, como se não houvesse nada para ver e observar. 

     Nos finais de semana, quando finalmente poderia ter um pouco de lazer, preferia permanecer em sua residência. Havia perdido os poucos amigos que considerava com esse jeito introvertido. Não conseguia compreender o que sentia e por quê. Era um vazio que a tomava, como se fosse oca.

     Sua casa, mal arrumada, não possuía muitos móveis, contudo os poucos estavam desgastados. Adorava flores; tinha um pequeno jardim aos fundos. Mas Deprimida nem percebeu que elas estavam ressequidas, como se implorassem para ser regadas. 

     Uma escada extensa sem corrimão conduzia à laje. Sempre a via com olhos curiosos e um tanto hesitantes. Apenas a conheceu no dia em que comprara, porém não a freqüentava. Provavelmente aquilo havia sido feito para facilitar a entrada de ar, já que não havia muitas janelas e portas. Um local um tanto quente, abafado e sufocante.

     Algumas vezes fora tomada por um desejo súbito de lançar-se às escadas, sem pensar; contudo apenas subira o primeiro degrau.

     Nos fins de semana, em sua residência, ora se encontrava afundada no sofá, ora caminhando de um lado para o outro.

     Nada lhe parecia diferente, nada nascia, crescia ou envelhecia; aos seus olhos tudo estacionara. Não havia vida no que via. Não havia vida dentro dela. Tinha uma atitude blasé, estava insensível, nada a abalava. Pelo menos assim pensava, pois em alguns momentos chorava, sem motivo, sem razão, apenas e somente chorava.

     Sua fé deixara de ser inabalável. Questionava-se se seria a única ou se todos passavam pelo mesmo. Talvez soubessem disfarçar, mas não poderia responder se em si, era evidente.

     Mas sentir, não sentia, sua sensibilidade adormecida não permitia. Poderia ter começado com um leve espreguiçar, porém não havia aberto os olhos ainda. Provavelmente não existia, acreditava que sim, mas o fato de haver um corpo presente não significava alma presente, talvez ausente… dispersa… perdida entre o tempo e o espaço… perdida entre o insistente sol da manhã e a brisa suave da noite. Alienada a tudo e a todos; talvez fosse melhor assim, não ouvia, via ou dizia ao que presenciava; calou-se, emudeceu. Muito se impregnou em sua alma, muito selecionou, muito não teve escolha.

     Foi então que, em um fim de tarde, lançou-se às escadas, desesperadamente. Estava no alto de sua casa.  Os pés terrivelmente brancos seguiam cambaleantes, as mãos buscavam desesperadamente segurança. Em uma face quase pálida, o vermelho era inchaço. Os cabelos revoltos ao vento; a cor da pele contrastava com o luto de sua veste, de luto se considerava, mesmo sem saber o motivo.

     A vida intensa da cidade não penetrava em seu mundo, e seu mundo passava despercebido para essa vida intensa. Era o eco mudo do pranto. Enquanto uns celebravam a vida, ela lamentava a sua. Os passos aproximavam-se de um impasse; se permanecesse onde estava restaria apenas a esperança; mais um passo e poria fim à dor, ao mesmo tempo em que conheceria o mistério.

     Estar ali seria uma tentativa de pedir ajuda? Será que ela tinha um problema sério? Maior que o mistério da vida é o que cada um guarda dentro de si. Até que um fator essencial para uma decisão, a coragem ou a falta, a fez permanecer, mesmo desconhecendo o que lhe esperava.

O VÔMITO

     Sua infância, como a de muitos, tinha a presença intensa feminina, pois seu pai estava sempre muito ocupado trabalhando. Seu comportamento sofria grande influencia das mulheres: sua mãe, avó, empregada, professora.

     Mas ao crescer todos exigiam comportamentos opostos ao que vivenciara; então, era reprimido ou ele mesmo se reprimia. Negava o lado feminino de sua personalidade, sem saber o quanto este era essencial.

     Portanto, logo aprendeu a se proteger, a ser viril; aprendeu que o pranto só pertencia à mulher, e as manifestações sensíveis não lhe cabiam.

     Sua família era conservadora e seu pai um machista que via em seu filho não um indivíduo, mas sim, uma extensão de si mesmo. Por isso, quando criança, era contrariado ou, se algo o incomodava, corria, corria para longe e, escondido, chorava. E adolescente, quando o mesmo ocorria, como alívio, deixava sua agressividade acumular até que a usava contra algo ou alguém.

     Na infância teve que brincar apenas com meninos em brincadeiras bastante ativas e racionais, para mais tarde ter que caminhar apenas na companhia de meninas. Tudo rigidamente controlado e analisado por uma sociedade que não perdoa quem se conduz por estradas alternativas. Assim, era preciso, pois não queria ouvir temíveis palavras que pudessem por à prova sua reputação de verdadeiro homem.  

     Em seus laços familiares não conseguia demonstrar afeição, em seus vínculos fraternos não tinha paciência para iniciar e manter uma amizade. Em suas uniões amorosas era muito possessivo, autoritário; apenas as submissas permaneciam, mas não por muito tempo.

     Porém, uma gostara tanto dele que mesmo não sendo correspondida o namoro durou anos; ele apenas se acomodara, e assim chegaram a se casar. 

     Aos trinta anos teve um filho, não planejado e não desejado. Às vezes sentia a vida escorrer entre os dedos. 

     Na vida de casado não se adaptava, não conseguia levar uma vida doméstica, cuidar do filho; precisaria desenvolver um lado reprimido durante muito tempo. Estava sempre afastado, ainda que debaixo do mesmo teto; era como se esconder para não assumir responsabilidades e conseqüências de seus atos.

     Ele foi conduzido a se importar apenas com suas atividades profissionais; trabalhava muito, precisava ser alguém, ter sucesso, poder, dinheiro. Tinha que ter o controle de tudo, não admitia servir, buscava ser servido. Ele poderia ser diferente, era uma escolha pela qual não optou ou não conseguiu. Seu comportamento apenas era reflexo do que lhe foi ensinado.

     Trabalhava muito para proporcionar o melhor à sua família, mas quanto mais se ocupava, mais era tido como pai e esposo relapso; porém o mesmo aconteceria se não se esforçasse.

     Não era um homem bem sucedido em sua carreira, não tinha amigos e era um pai e marido negligente.

     Em uma noite, retornando de seu emprego medíocre, trajava um terno sóbrio de tecido pesado e sapato escuro; como a maioria dos homens apenas usava cores discretas, formais, sérias, como um homem deveria ser. Estava em um trem lotado, pois não tinha condução própria, rodeado de pessoas que aparentavam extremo cansaço e exalavam um odor desagradável.

     Diferentemente das outras inúmeras vezes, aquele cheiro impregnou seu íntimo. Havia muitos ruídos, conversas; um pastor munido de sua bíblia tentava impor aos berros sua religião, como se a escória fosse a mais pecadora; o pastor gritava que Jesus Salvaria; ele judeu, desejava que alguém o resgatasse, até mesmo o Salvador.

     Após muito tempo em pé, conseguiu sentar. Sua veste lhe sufocava, então tirou o paletó e afrouxou a gravata. Jogou seu corpo sobre o banco, exausto de uma vida que não era o que almejava, de um eu que repugnava. Fechou os olhos por um momento esperando acordar de um pesadelo.

     O chacoalhar do vagão era efeito de uma máquina quase enferrujada; e era exatamente assim sua vida, emperrada, sem um conduzir suave e harmônico. Aquele balanço provocava enjôos; não sabia mais distinguir de que espécie se tratava, pois também estava enjoado da sua vida.

     Desejava mudar, e agora estava disposto a isso. Foi então que vomitou. Vômito causado por tudo que o incomodava, o corpo sedento pela expurgação, tremia; doeu ver e sentir jorrar das entranhas. Ficaram resquícios e ainda sentia o gosto amargo na boca.   

 

O INACABADO

(Escrito em 2006)         

          Era um lindo final de tarde de verão. O sol se escondia, mas ainda se fazia presente, e o céu estava pincelado em uma aquarela de um suave azul; quase não havia nuvens, o que o tornava mais belo.

          Ela se chamava Esperança.  Em sua casa, sem ocupação, apenas esperava, e isso tornava-se uma. Não se lembrava dos seus afazeres; mesmo sem saber ao certo pelo que, esperar a consumia. Esperar: ato de ficar inerte, imóvel, mudo por dentro e por fora. Mudo até mesmo em um mundinho onde há tantas vozes e sons… mudo. Esperava algo que trouxesse alívio, conforto, quando seus pensamentos e sentimentos conduziriam a uma única coisa. 

          Esperava e somente esperava. Tornara-se preciso pensar, esperar, acreditar. Como se algo viesse de muito longe e a tirasse do seu mundinho cretino. Com isso tinha a sensação de que o tempo não passava.

          E era assim o seu andar, quase lento. Mesmo não sendo próprio da sua idade o aguardo. Quando os ponteiros do relógio haviam se desencontrado o suficiente para que desse o horário de sair para ir à escola, com seu andar paciente, quase parado, ia.

          Já noite, sua essência iluminava entre as inúmeras pessoas que andavam apressadamente. A cidade contaminava o ritmo interno de todos, poucos conseguiam driblá-la. A maioria andava focada em sua direção, alienada de tudo à sua volta; era tanta informação que o olhar captava quase nada, não se fixava em algo por mais de três segundos. Os cabelos das mulheres esvoaçavam em desencontro ao corpo ou batiam contra suas costas conforme andavam mais rápido.

          Com Esperança era muito diferente, guiava-se por seu ritmo interno. Ela, de estatura mediana, no auge de seus quinze anos, vestia uma saia azul marinho pregueada até os joelhos e uma mini-blusa branca, porém o que mais chamava a atenção eram suas meias coloridas, grossas, sete oitavos, que os calçados estilo boneca mal encobriam. Seus cabelos cacheados repousavam serenamente em suas costas. Mesmo fechada em seu mundinho, sua alegria, juventude e inocência transpirava. Caminhava esperançosa de que o melhor ainda estava por vir.

          Estava andando por uma rua extensa e o contorno do quarteirão se aproximava. Do outro lado, ele se dirigia em outro ritmo, em um passo mais curto e apressado, como se estivesse fugindo de algo, de alguém, talvez de si mesmo. Alto, no auge de seus trinta e pouco anos, de cabelos desleixados, trajava um terno e uma gravata em cores opacas e desgastadas que pareciam sufocar-lhe; provavelmente se dirigia ao trabalho; podia chamar muita atenção por sua beleza se não fosse sua face tristonha e o leve cansaço de quem arrastava consigo desilusões.

          Estavam chegando à curva quando se esbarraram; acontecera tudo tão rápido que mal tiveram tempo de se desculpar; seguiram em frente, em direções opostas.

          O dia seguinte podia ser mais um dia qualquer; fosse ou não por obra do acaso, esbarraram-se novamente, desta vez os dois pararam e se fitaram, talvez boquiabertos com tamanha coincidência. Esperança olhou-o, e sem graça, articulou um ‘desculpe’ com um sorriso frouxo; ele apenas retribuiu com um sorriso à altura, pois não conseguiu pronunciar uma palavra. Ambos continuaram a caminhar, porém dessa vez em outro ritmo. Os passos rápidos diminuíram gradativamente, até mal conseguirem andar. Foram contaminados.

          Esperança, em sua casa, continuou a esperar, agora não sabia pelo que. Havia se encantado por um homem estranho e mais velho. Não podia descrever ao certo o que sentia e nem se era certo sentir, mas queria, precisava vê-lo novamente.

          E os dias que se seguiram foram inacreditáveis, quase impossíveis, pois o relógio soou preciso: encontraram-se novamente. Não se esbarraram mais, contudo se fitaram; e assim evoluiu, de um olhar para um sorriso sutil até chegar a um declarado. Porém, depois não houve mais progresso.

          Passaram-se seis meses e ele tomou uma decisão: quando se encontraram ele a tocou; aquele toque criou um choque e se miraram rapidamente; ela, surpresa e um tanto assustada continuou a se conduzir, por medo ou opção; ele, perplexo com a atitude dela, voltou a percorrer a rua. Um tomando o caminho que o outro acabara de fazer; os dois não olharam para trás, nem sequer por uma vez.

          Tudo havia acontecido em questão de segundos, mas um segundo podia ser tão significativo. Mas podiam imaginar que outra coincidência não viria a acontecer e que naquele momento tinham feito uma escolha, que mudaria suas vidas.

          No outro dia, ambos fizeram o mesmo trajeto, ansiosos pelo encontro, para que pudessem entender o que havia sucedido, mas não houve encontro. Nunca mais se encontraram, contudo, sempre que faziam aquele percurso, como se estivessem arrependidos da decisão, procuravam um ao outro. Naquele exato lugar acontecera um encontro e um desencontro. Naquele exato lugar e dentro deles, para sempre, haveria uma sensação de algo inacabado.