MUDANÇA NÃO PREVISTA

                A casa era muito ampla, a decoração mesclava diversas tendências, tudo era diferente, gracioso, parecia a casa dos sonhos. Estava sempre muito bem arrumada, organizada, ornamentada, impecável, cada objeto cuidadosamente limpo. Não havia poeira. Esta tinha sido palco de grandes reuniões, festas, comemorações, discussões amenizadas rapidamente com palavras carinhosas, risos histéricos e com noites de grande paixão.

                O casal que nela habitava era feliz. Quando eles se conheceram, logo se apaixonaram. Namoraram por um tempo suficiente para terem certeza. Casaram-se, não tão jovens e imaturos, nem tão maduros e desiludidos.

               Faziam inveja a qualquer um de tanto que se amavam e eram leais. E acima de qualquer inveja, dos altos e baixos da vida a dois, estavam juntos há muitos anos.

                Porém, agora, nada era mais como antes. Passaram dias, semanas, meses, nem eles sabiam ao certo quando tudo mudou.

                 O imóvel parecia ter reduzido gradativamente de tamanho. A casa estava em desordem, os objetos e móveis fora do lugar, tudo muito confuso. Eles, sem se darem conta, deixaram acumular pó.    

                 Ele, cansado, passou a ficar alheio aos acontecimentos domésticos, estava sempre ocupado trabalhando demais. Ela, cansada, às vezes, saia para cuidar de si e largava tudo em casa.

                 Qualquer atitude fora do comum gerava desconfianças. Exerciam cobranças e faziam reclamações constantes um do outro. Um cada vez mais nervoso, frio e indiferente com o outro. Desvalorizavam quando o outro fazia algo de bom. Nunca estavam satisfeitos.  A distância crescia entre os dois.  

                 Chegou um momento em que não tentavam mudar o presente, nem mais reclamavam, apenas sobreviviam do passado, das recordações.

                 A residência passou a um profundo silêncio. Mesmo emudecidos, cada um tinha muito a dizer ao outro, mas faltava coragem para quebrar o silêncio; as palavras eram calculadas, estudadas, para serem ditas; não queriam ser mal interpretados. Nada de conversas profundas, filosóficas, como era de costume; conversavam o estritamente necessário.

                  Não faziam mais refeições juntos, não conseguiam se encarar por muito tempo; na verdade, não conseguiam permanecer durante muito tempo juntos no mesmo lugar. Quando um sabia que o outro passaria horas ali, desesperadamente encontrava compromissos fora, tudo para fugir.

                  Evitavam se tocar; fugiam de tudo que era íntimo demais. Não buscavam mais um ao outro, mas na tentativa de uma nova chance, às vezes se aproximavam, porém em vão. No quarto, na cama, um esperava o outro dormir para então deitar-se.

                  Queriam entender, precisavam entender. Havia muitas perguntas a serem feitas e precisavam de respostas. Não desgostavam um do outro, contudo foram afetados por algo e não enxergavam mais o outro pelo prisma de sempre.

                  Cada um se torturava com seus pensamentos, achando que o outro poderia ter conhecido outra pessoa e assim estar ocorrendo um adultério.

                  Ela, farta de sua vida, às vezes sonhava com um homem que pudesse conhecer e dar a atenção que não recebia mais. Ele, também farto, pensava nas aventuras amorosas que poderia ter tido.  

                  Algumas vezes ambos se indagavam sobre outra pessoa que haviam conhecido no passado, alguém que tivessem namorado ou se apaixonado. Talvez estivessem em outra situação agora e, conseqüentemente, não estariam passando por isso; poderiam estar com outra pessoa e felizes.

                  A possibilidade de terem cometido erros era questionada; sabiam que não adiantaria mais culpar um ao outro, como fizeram algumas vezes, afinal se havia desgaste, algo conduziu a tal, e não havia inocentes, ambos eram culpados.    

                 Perguntavam a si mesmos se era apenas uma crise, mas, no fundo, sabiam a resposta. Ainda assim, receavam ser algo passageiro; tinham medo de terminar e o arrependimento bater à porta.    

                  A dor era grande. Não conseguiam e não queriam se conformar com o rumo que as coisas estavam tomando. Relutavam; durante um bom tempo remoeram aquela situação.

                  Assim, foram evitando o confronto, arrastando consigo insatisfações, frustrações, incertezas, culpas e tristezas.  Até não poderem mais. Um dia, ao estar só, ela começou a arrumar seus pertences sem pensar muito no que estava fazendo; encaixotou objetos, maquinalmente, absorta em si mesma.

                  De repente, ouviu o virar da chave na fechadura. Ele abriu a porta, e a olhou estático. Sabia o que estava acontecendo. Não conseguiu pensar muito, mas ficou incomodado que a atitude tivesse partido dela. Contudo, um dia alguém precisaria fazer aquilo. Ele não teve coragem, provavelmente por ter se acomodado ou por receio de magoá-la.

                  Ela, que também ficou estática com a sua aparição, começou a se levantar. Depois de meses se encararam sérios e por um longo tempo. Lágrimas escorreram da face dela e os olhos dele ficaram marejados. Tentaram balbuciar algo, mas permaneciam mudos. 

                  Como era difícil ignorar tantos anos de relacionamento. Aquilo que eles mais procuravam, não estavam encontrando. Como explicar o que não tinha explicação. Essa espécie de mudança ninguém pode prever; aliás, acreditavam que o amor seria eterno. Mas seu fim se aproximava.

                   Haviam se apaixonado de forma fulminante. Essa paixão transformou-se em algo sério e estável. O estranhamento simplesmente aconteceu. Provavelmente, um dia acordaram e não reconheceram aquela pessoa com quem dividiam a cama ou durante muito tempo não aceitaram cada um como fosse e sim como gostariam que fosse.

                   Ela deixou seu corpo exausto sentar no sofá, e chorou desesperadamente; ele, chorando também, tentou acalmá-la. Ela acusou-o de uma possível traição; ele, defendendo-se, acusou-a do mesmo. Mas ambos negaram, juraram que não. Perguntaram um ao outro o que havia de errado, se tinham feito algo que desagradou, mas confessaram que não sabiam se havia um motivo. Então, chorando, se abraçaram forte, depois de muito tempo. 

                   Como ela, ele também não havia contratado um caminhão de mudanças e nem procurado outro imóvel, mas começou a arrumar seus pertences também. Muitos objetos tinham sido comprados em conjunto e quando não, compraram pensando em agradar ao outro, e naquele momento só pensavam em separar o que ficaria com quem.

                    Havia objetos que, egoisticamente, queriam levar consigo, talvez como lembrança ou porque era justamente o que lhe pertencia. Queriam algo para recordar, mas também queriam esquecer; sonhavam em ser livres, começar uma vida nova, mesmo com os corações destroçados.

                    Passaram o dia inteiro a separar tudo. O dia amanheceu e não haviam percebido. Depois de tanto tempo estavam loucos para acabar com aquilo.

                    Não conseguiram separar tudo. Chegou um momento em que, na sala, se reuniram e como se estivessem com tudo pronto para nunca mais se verem, se encararam e, com um longo abraço, se despediram e disseram “adeus”. 

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8 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Edson Theodoro
    maio 05, 2011 @ 05:04:58

    Fiquei torcendo o tempo todo por um final feliz…muito bom mesmo, prendeu minha atenção e me deixou tenso querendo ver o que vai acontecer…adorei…bjus amore

    Responder

  2. Márcia Moreira
    maio 06, 2011 @ 18:38:12

    Que conto bonito, mas triste! Gostei desta parte: “mas ficou incomodado que a atitude tivesse partido dela. Contudo, um dia alguém precisaria fazer aquilo. Ele não teve coragem, provavelmente por ter se acomodado ou por receio de magoá-la”. A maioria dos homens não tem coragem de por fim em um relacionamento, só mesmo uma mulher para tomar essa atitude.

    Responder

  3. Patrícia Gusmão
    maio 07, 2011 @ 04:44:12

    “Aquilo que eles mais procuravam, não estavam encontrando. Como explicar o que não tinha explicação. Essa espécie de mudança ninguém pode prever; aliás, acreditavam que o amor seria eterno”. É… acho que nada é eterno… Mas a gente sempre acredita…

    Responder

  4. Venâncio Siqueira
    maio 07, 2011 @ 22:39:44

    É muito triste quando um casal se separa, ainda mais depois de anos de relacionamento. Mas é necessário ter coragem pra recomeçar.

    Responder

  5. Ana Silveira
    maio 08, 2011 @ 21:19:36

    Quando um relacionamento está em crise, fica a dúvida:

    Será melhor não se separar? Afinal pode ser uma atitude precipitada e o final desastroso é jogar fora anos de relacionamento.

    Ou será melhor se separar? Assim ninguém se acomoda, não sofre e nem fazer o outro sofrer. E ambos poderão recomeçar uma vida nova e serem felizes.

    Responder

  6. Maria Clara
    maio 12, 2011 @ 05:10:03

    “Aquilo que eles mais procuravam, não estavam encontrando. Como explicar o que não tinha explicação. Essa espécie de mudança ninguém pode prever; aliás, acreditavam que o amor seria eterno”. Todo relacionamento é assim, a gente sempre acredita que será eterno, mas são tantas as mudanças não previstas da vida…

    Responder

  7. Fabiana Machado
    maio 14, 2011 @ 19:24:37

    Como disse Wagner Moura em uma entrevista à Rolling Stone: “O casamento é uma instituição moderníssima. Hoje, nada mais obrigada duas pessoas a estarem juntas, a não ser o amor”. Muito bom seu texto!

    Responder

  8. Juliana Amorim
    maio 17, 2011 @ 23:39:59

    Bonito texto! Eu acho que a melhor forma de terminar é de forma amigável, afinal culpar um ao outro é um erro, já que se o relacionamento está indo mal e chega ao afim quer dizer que os dois são culpados.

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